# V.1 — Interpretabilidade e Justiça

> **Estado da arte capturado em 2026-08** · última revisão 2026-08-10 · [histórico](../HISTORICO.md)
>
> **Nível: essencial.** Corpo escrito e prática funcionando; o aprofundamento (experimento próprio, todas as fontes conferidas, cláusula de expiração) vem em ciclo próprio — ver [níveis de maturidade](../GUIA-EDITORIAL.md#niveis-de-maturidade).

## Objetivos de aprendizagem

- **O1.** Distinguir modelo interpretável de explicação post-hoc.
- **O2.** Aplicar e criticar SHAP como atribuição de importância.
- **O3.** Comparar três definições formais de justiça e mostrar que são incompatíveis entre si.
- **O4.** Medir desempenho por subgrupo e decidir o que fazer com a diferença encontrada.

## O problema: explicar a decisão, e responder pela diferença

Quando um modelo nega um crédito, alguém precisa dizer por quê. Quando ele erra mais para um grupo de pessoas do que para outro, alguém precisa responder por isso. Os dois problemas se encontram no mesmo lugar: **explicação é o instrumento com que se descobre a diferença**, e a diferença é o que obriga a explicar.

Só que o resultado mais importante desta área não é técnico no sentido usual — é uma **impossibilidade**. As definições razoáveis de "justo" não podem ser satisfeitas ao mesmo tempo, exceto em casos degenerados. O erro que este capítulo previne é acreditar que existe um ajuste técnico que resolve. Não existe. Existe uma **escolha**, e alguém vai fazê-la — calado ou declarado.

## De onde isto veio

**O aperto.** Em 2016, um instrumento de avaliação de risco de reincidência usado em decisões judiciais reais nos Estados Unidos é acusado de viés racial. Acusação e defesa apresentam **evidência estatística correta** e chegam a **conclusões opostas**. Não é o caso comum, em que um lado errou a conta: os dois números estão certos.

**O que se fazia antes.** "Justiça" era tratada como qualidade única e não formalizada. Discutia-se se o modelo era justo — não **em qual sentido**.

**A virada.** Formalizar as definições rivais e **provar que são mutuamente incompatíveis** sempre que a prevalência do evento difere entre os grupos. A pergunta deixa de ser retórica e passa a ser aritmética.

**A ideia reaproveitável.** **Quando dois lados discordam com dados corretos, o desacordo é de definição, não de fato.** A pergunta útil não é "quem está certo?", é **"qual restrição cada um está impondo, e qual eu escolho pagar?"**. Vale muito além de justiça algorítmica: sempre que uma discussão trava com todos os números conferidos, procure a definição escondida.

**O nome.** De um lado, *calibração* — ou *test fairness*, vocabulário da psicometria, onde um teste é justo se o escore significa a mesma coisa para todo mundo. Do outro, *equilíbrio de taxas de erro*, vocabulário de quem olha a matriz de confusão. Dois campos, dois nomes, e a colisão entre eles é boa parte da confusão.

### O que cada um disse — e o que o teorema disse

**(a) O que a reportagem afirmou.** Angwin, Larson, Mattu e Kirchner publicam *Machine Bias* em 23 de maio de 2016. Dois números sustentam a peça: entre réus que **não** reincidiram, 44,9% dos negros contra 23,5% dos brancos haviam sido rotulados de risco mais alto; entre os que **reincidiram**, 47,7% dos brancos contra 28,0% dos negros haviam sido rotulados de risco mais baixo. Isso é desequilíbrio de taxas de erro, e é real.

**(b) O que a empresa respondeu.** Em julho de 2016, a Northpointe publicou uma réplica técnica (Dieterich, Mendoza & Brennan, *COMPAS Risk Scales: Demonstrating Accuracy Equity and Predictive Parity*) sustentando que o instrumento satisfaz **paridade preditiva**. E aqui o capítulo para: **este livro não leu esse documento** (o PDF devolve 404 no domínio da fornecedora, e o espelho público responde 403). Existência e autoria estão confirmadas em material acadêmico; o argumento em si, não. Por isso o texto não o caracteriza em primeira mão — e você deve desconfiar de qualquer resumo que o caracterize sem apontar a página.

**(c) O que o teorema estabeleceu.** Este ponto, sim, está fechado. Alexandra Chouldechova ([arXiv:1610.07524](https://arxiv.org/abs/1610.07524)) define um escore como *test-fair* (bem calibrado) quando ele reflete a **mesma probabilidade de reincidência independentemente do grupo**, e daí deriva a relação entre taxa de falso positivo, prevalência, valor preditivo positivo e taxa de falso negativo. A conclusão, nas palavras dela: *"when the recidivism prevalence differs between two groups, a test-fair score S<sub>c</sub> cannot have equal false positive and negative rates across those groups."* No próprio dado a prevalência difere (51% contra 39%) e portanto *"some level of imbalance in the error rates must exist"*. Não é acusação nem defesa: é álgebra de três linhas.

Quatro meses depois da reportagem, Kleinberg, Mullainathan & Raghavan chegam ao mesmo muro por outro caminho ([arXiv:1609.05807](https://arxiv.org/abs/1609.05807), 19/09/2016): *"we prove that except in highly constrained special cases, there is no method that can satisfy these three conditions simultaneously."*

> ### A cronologia é o conteúdo
>
> **23 de maio → julho → 19 de setembro → 24 de outubro de 2016.** Cinco meses entre uma reportagem e **dois teoremas independentes**.
>
> E o desfecho é o que se perde na repetição da história: **os dois lados estavam certos dentro da própria definição**. O que o teorema acrescenta não é um vencedor — é a prova de que **não pode haver um**, a menos que se mude a prevalência ou se abra mão de um critério. 📖

### O outro fio: uma fórmula de 1953 esperando um problema

O lado da explicação tem história mais curta e intervalo maior. **LIME** aparece em 16/02/2016 (Ribeiro, Singh & Guestrin, *"Why Should I Trust You?"*); **SHAP**, em 22/05/2017 (Lundberg & Lee) — e o resumo declara a contribuição não como invenção, mas como **unificação**: *"The new class unifies six existing methods"*. A fórmula por trás dele é de Lloyd S. Shapley, *"A Value for n-Person Games"*, de 1953.

> **O intervalo mais limpo do livro: 1953 → 2017, sessenta e quatro anos — e a fórmula não mudou.**
>
> O que mudou foi passar a existir um objeto cujas partes se pudessem tratar como jogadores de uma coalizão: um modelo treinado, com atributos que entram e saem. **A matemática esperou o problema, não o contrário.** Emparelha com Taylor 1953 → BERT 2018 no [capítulo III.6](iii-6-modelos-de-fundacao.md) — e o ano de origem é o mesmo nos dois casos. 📖

**Procedência das afirmações desta seção:**

| Selo | Afirmação |
|---|---|
| ✓ | Chouldechova, *Fair prediction with disparate impact* ([arXiv:1610.07524](https://arxiv.org/abs/1610.07524), 24/10/2016) — a definição de *test fairness*, a relação entre as taxas, as prevalências de 51% e 39% e as duas citações entre aspas. **Lido** |
| ✓ | Angwin, Larson, Mattu & Kirchner, *Machine Bias* (ProPublica, 23/05/2016): assinatura, data e os quatro percentuais, **conferidos no texto da página extraído localmente**, e não por resumo de máquina. A tabela chama-se *"Prediction Fails Differently for Black Defendants"* e traz, na linha *"Labeled Higher Risk, But Didn't Re-Offend"*, 23,5% (brancos) contra 44,9% (negros); na linha *"Labeled Lower Risk, Yet Did Re-Offend"*, 47,7% (brancos) contra 28,0% (negros). A mesma página dá o acerto global do instrumento: *"correctly predicts recidivism 61 percent of the time"* |
| ✓ᵐ | Shapley, *"A Value for n-Person Games"*, *Annals of Mathematics Studies* 28, Princeton UP, 1953, pp. 307–317; e o fato de Timnit Gebru assinar **Datasheets** (ver [capítulo I.3](i-3-dados.md)) e **Model Cards**, ambos de 2018 |
| ✓ᵐ | Que Dieterich, Mendoza & Brennan publicaram *COMPAS Risk Scales* (Northpointe, julho de 2016) — existência e autoria confirmadas em material acadêmico |
| ❌ | **O conteúdo desse documento**, que continua não aberto. As tentativas, para quem retomar: o PDF no domínio da fornecedora devolve 404, e o espelho no DocumentCloud responde 403 atrás de Cloudflare, tanto na página quanto na API. Por isso este capítulo afirma apenas que a réplica existe e sustenta paridade preditiva, e **não caracteriza o argumento da empresa em primeira mão** |
| ✓ᵃ | Kleinberg, Mullainathan & Raghavan ([arXiv:1609.05807](https://arxiv.org/abs/1609.05807), v1 19/09/2016); LIME ([arXiv:1602.04938](https://arxiv.org/abs/1602.04938), v1 16/02/2016); SHAP ([arXiv:1705.07874](https://arxiv.org/abs/1705.07874), v1 22/05/2017), incluindo a frase sobre unificar seis métodos; Model Cards — Mitchell, Wu, Zaldivar, Barnes, Vasserman, Hutchinson, Spitzer, Raji e Gebru ([arXiv:1810.03993](https://arxiv.org/abs/1810.03993), v1 05/10/2018). Em todos, a citação vem do **resumo** |
| 📖 | A leitura de que a cronologia é o conteúdo; o paralelo Shapley→SHAP com Taylor→BERT; e a formulação "o desacordo é de definição, não de fato" |

> **Legenda adicional:** **✓ᵃ** = o **resumo** do artigo foi lido literalmente e sustenta a citação; o corpo, não. É mais forte que ✓ᵐ e mais fraco que ✓.

## Fundamentos: o que é explicar um modelo

Duas perguntas diferentes se escondem sob a mesma palavra. **Global**: *como este modelo funciona, no geral?* — quais atributos usa, em que direção, com que peso; serve para auditar. **Local**: *por que este caso recebeu esta saída?* — serve para responder à pessoa que teve o crédito negado, e é o que a regulação normalmente exige. A assimetria prática é grande: times produzem explicação global com facilidade e são cobrados por explicação local.

### Interpretável por construção, ou explicado depois

**Interpretável por construção** é o modelo cuja estrutura já é a explicação: uma regressão linear com poucos atributos, uma árvore rasa, um sistema de regras (ver [capítulo IV.3](iv-3-ia-simbolica-fuzzy-evolutiva.md)). Você lê o modelo e sabe o que ele faz. **Explicação post-hoc** é o que se faz quando o modelo é um ensemble de mil árvores ou uma rede profunda: treina-se um **segundo** objeto, simples, para descrever o comportamento do primeiro. Daí o alerta que sustenta metade deste capítulo.

> **Uma explicação post-hoc é uma aproximação do modelo — não a razão pela qual o modelo decidiu.**

O modelo não tem "razões": tem pesos. A explicação é uma narrativa ajustada para se parecer com o comportamento dele naquela vizinhança. Pode ser útil, defensável e ainda assim **não** ser o que aconteceu por dentro. Tratá-la como motivação da decisão (num relatório, numa auditoria, em juízo) é trocar o modelo pelo retrato dele. Quando a decisão for de alto risco e a exigência de justificar for real, considere pagar o preço do modelo interpretável por construção: a perda de desempenho costuma ser menor do que o time supõe, e às vezes some dentro do intervalo de confiança (ver [capítulo II.8](ii-8-do-modelo-a-decisao.md)).

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e5","tipo":"multipla","objetivo":"O1","dificuldade":"media"}
Um regulador pede que o banco explique **por que este cliente** teve o crédito negado. Qual tipo de explicação ele está exigindo, e o que costuma acontecer nos times?

- [ ] Global, e times têm dificuldade em produzi-la.
- [ ] Local, e a assimetria é grande: times produzem explicação global com facilidade e são cobrados por explicação local.
- [ ] Global, e basta listar os atributos mais importantes do modelo.
- [ ] Local, e ela é obtida diretamente da importância global de atributos.

> **volte para:** #fundamentos-o-que-e-explicar-um-modelo
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e6","tipo":"multipla","objetivo":"O1","dificuldade":"dificil"}
Uma equipe reporta que a explicação post-hoc tem 96% de fidelidade ao modelo. A diretoria conclui que pode usá-la como justificativa oficial das decisões. Qual é a crítica correta?

- [ ] Nenhuma: 96% é fidelidade alta o bastante para uso oficial.
- [ ] Fidelidade é uma concordância média, e a pergunta do regulador é sobre **aquela** decisão; a explicação continua sendo uma aproximação, não a razão pela qual o modelo decidiu.
- [ ] O erro é a fidelidade ser medida sobre o treino, e não sobre o teste.
- [ ] O erro é usar explicação post-hoc, que nunca deve ser produzida.

> **volte para:** #interpretavel-por-construcao-ou-explicado-depois
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

### LIME e SHAP, sem fórmula

**LIME** faz o óbvio, e o óbvio funciona: pega o caso que você quer explicar, gera variações dele em volta, pergunta ao modelo o que ele responde para cada variação e ajusta um modelo simples **só naquela vizinhança**. O resultado responde *"perto deste caso, o modelo se comporta assim"* — nada além disso.

**SHAP** vem da teoria dos jogos cooperativos. Imagine a previsão como o prêmio de uma partida e cada atributo como um jogador que entra na coalizão: a contribuição de um jogador é o quanto ele acrescenta ao prêmio, **em média sobre todas as ordens possíveis de entrada**. Isso dá à atribuição uma propriedade rara — as contribuições **somam exatamente** o desvio entre a previsão daquele caso e a previsão média. Nada some, nada aparece do nada.

Mas a atribuição **não é causal no mundo** ("renda contribuiu −0,4" não diz o que aconteceria se a renda mudasse), **não é a razão interna** do modelo, e **não é estável de graça**: atributos correlacionados dividem crédito de formas que dependem da implementação.

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e1","tipo":"multipla","objetivo":"O1","dificuldade":"facil"}
Um banco usa um ensemble de árvores para decidir crédito e gera, para cada negativa, uma explicação SHAP com os três atributos de maior contribuição. O jurídico pergunta se essa explicação pode ser apresentada como a motivação da decisão. Qual leitura é correta?

- [ ] Sim: SHAP tem base na teoria dos jogos, então a atribuição é causal e mostra o que causou a negativa.
- [ ] Não: a explicação post-hoc descreve como o modelo se comporta perto daquele caso — é aproximação, não a razão interna da decisão.
- [ ] Sim, desde que as contribuições somem o desvio em relação à previsão média, o que SHAP garante.
- [ ] A pergunta não se aplica: bastaria trocar por um modelo interpretável por construção, que já dispensa a análise por subgrupo.

> **volte para:** #interpretavel-por-construcao-ou-explicado-depois
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e7","tipo":"multipla","objetivo":"O2","dificuldade":"facil"}
A propriedade rara do SHAP é que as contribuições somam exatamente o desvio entre a previsão daquele caso e a previsão média. O que **não** decorre disso?

- [ ] Que nada some e nada aparece do nada na atribuição.
- [ ] Que a contribuição é causal no mundo: "renda contribuiu −0,4" não diz o que aconteceria se a renda mudasse.
- [ ] Que a atribuição é completa em relação à previsão daquele caso.
- [ ] Que existe uma referência, a previsão média, contra a qual o desvio é medido.

> **volte para:** #lime-e-shap-sem-formula
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e8","tipo":"multipla","objetivo":"O2","dificuldade":"media"}
Qual é a diferença entre o que LIME e SHAP fazem?

- [ ] O LIME gera variações do caso, pergunta ao modelo o que ele responde para cada uma e ajusta um modelo simples **só naquela vizinhança**; o SHAP atribui contribuição a cada atributo em média sobre todas as ordens de entrada.
- [ ] O LIME é global e o SHAP é local.
- [ ] O LIME funciona só com modelos lineares e o SHAP com qualquer modelo.
- [ ] São implementações diferentes do mesmo algoritmo.

> **volte para:** #lime-e-shap-sem-formula
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

## Três definições de justiça que não cabem juntas

Cada uma é razoável, cada uma tem defensores sérios, e cada uma exige coisa diferente. Repare que a primeira nem olha o desfecho, e as outras duas olham.

| Definição | Exige que… | Quem ela protege |
|---|---|---|
| **Paridade demográfica** | a proporção de decisões positivas seja igual entre os grupos | quem é sub-representado no resultado, independentemente do desfecho |
| **Igualdade de oportunidade** | entre quem **de fato** é positivo, a taxa de acerto seja igual entre os grupos | quem merecia a decisão favorável e não a teve |
| **Calibração** (*test fairness*) | o mesmo escore signifique a mesma probabilidade em qualquer grupo | quem lê o escore e age sobre ele — e quem seria mal servido por um escore que "vale menos" no seu grupo |

### A álgebra de três linhas

A relação de Chouldechova amarra quatro grandezas: taxa de falso positivo, prevalência, valor preditivo positivo e taxa de falso negativo. Fixadas três, a quarta está determinada. Não é tendência empírica — é identidade.

A consequência é a frase citada acima: com prevalência diferente entre os grupos, um escore calibrado **não pode** ter taxas de falso positivo e de falso negativo iguais entre eles. E prevalência quase sempre difere, por razões que nada têm a ver com o modelo — inclusive porque o dado histórico registra um processo social, não a verdade sobre as pessoas (ver [capítulo I.3](i-3-dados.md) e [capítulo III.6](iii-6-modelos-de-fundacao.md)). Daí a formulação prática: **exigir as três definições ao mesmo tempo é exigir que a prevalência seja igual.** Se ela não for, você pediu algo aritmeticamente impossível — e alguém vai entregar um relatório dizendo que conseguiu.

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e2","tipo":"numerica","objetivo":"O4","dificuldade":"media"}
Um escore de risco foi avaliado separadamente em dois grupos, com mil pessoas cada. A tabela traz as quatro células da matriz de confusão de cada um:

| Grupo | Positivo real, previsto positivo | Positivo real, previsto negativo | Negativo real, previsto positivo | Negativo real, previsto negativo |
|---|---|---|---|---|
| **A** (prevalência 40%) | 280 | 120 | 120 | 480 |
| **B** (prevalência 60%) | 420 | 180 | 180 | 220 |

Calcule a **taxa de falso positivo do grupo B**. Responda em fração, com duas casas decimais.

> **volte para:** #a-algebra-de-tres-linhas
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e9","tipo":"multipla","objetivo":"O3","dificuldade":"facil"}
Qual das três definições de justiça **não** olha o desfecho?

- [ ] Paridade demográfica: ela exige proporções iguais de decisões positivas, independentemente de quem de fato era positivo.
- [ ] Igualdade de oportunidade.
- [ ] Calibração.
- [ ] Nenhuma delas olha o desfecho.

> **volte para:** #tres-definicoes-de-justica-que-nao-cabem-juntas
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e10","tipo":"multipla","objetivo":"O3","dificuldade":"dificil"}
Segundo a álgebra de Chouldechova, qual afirmação é correta?

- [ ] Com dados suficientes, os três critérios podem ser satisfeitos simultaneamente.
- [ ] Fixadas três das quatro grandezas, a quarta está determinada: é identidade, e não tendência empírica.
- [ ] A incompatibilidade some quando o modelo é bem calibrado.
- [ ] A relação vale apenas para modelos lineares.

> **volte para:** #a-algebra-de-tres-linhas
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::lab {"id":"interpretabilidade-justica-l1","tipo":"anima-justica","titulo":"Mova o limiar de um grupo e tente acender os três"}
A álgebra acima é curta e continua abstrata até alguém tentar. Aqui não há nada a treinar: os escores dos dois grupos já existem, o limiar do grupo B está fixo em 0,50, e a única coisa que se move é **onde se corta o escore do grupo A**.

Os dois grupos são **calibrados por construção** — dentro de cada um, um escore de 0,7 corresponde mesmo a 70% de positivos. É a premissa do teorema, e é por isso que a terceira luz fica verde o tempo todo.

Assista o limiar descer de 0,75 a 0,25 e olhe as três luzes. A paridade acende num ponto; a igualdade de oportunidade acende noutro; e **elas nunca acendem juntas**. O melhor que a varredura inteira consegue é **2 de 3**.

Agora clique em **"E se as prevalências fossem iguais?"**. Mesmo modelo, mesmo procedimento, mesma varredura, e agora existe um limiar em que os três acendem: **3 de 3**.

É essa a forma exata do teorema, e ela é mais útil que a frase "não dá para ter tudo": a impossibilidade **não é uma lei da natureza nem um defeito do modelo**. Ela depende de uma condição do mundo — a diferença de prevalência entre os grupos. E essa diferença costuma ser, ela mesma, resíduo de um acesso desigual anterior, o que explica por que a ação mais valiosa às vezes está fora do modelo.
:::

## Quando o teorema diz que você tem de escolher

Provado que não dá para ter tudo, o trabalho muda de natureza: passa a ser de **procedimento**, em quatro partes.

**1. Declarar a escolha.** Escreva qual critério o sistema otimiza, qual foi abandonado e por quê — "priorizamos igualdade de oportunidade porque o custo do falso negativo recai sobre quem já tem menos acesso, e aceitamos taxas de falso positivo desiguais". Escolha calada não deixa de ser escolha; deixa apenas de ser auditável.

**2. Medir por subgrupo, sempre.** A média esconde a decisão. Reporte a **matriz de confusão inteira por subgrupo** (ver [capítulo II.1](ii-1-avaliacao.md)), não uma métrica agregada. Três cuidados: declare os subgrupos **antes** de olhar os resultados, para não caçar o recorte conveniente; verifique se cada um tem gente suficiente para a estimativa significar algo; e lembre que ausência de diferença medida num subgrupo pequeno é ausência de medida, não ausência de diferença.

**3. Envolver quem paga a conta.** A escolha entre critérios distribui erro entre pessoas, e quem decide raramente é quem recebe. Levar a decisão a quem sofre a consequência não é gentileza: é a única forma de descobrir qual erro dói mais — informação que não está no conjunto de dados.

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e11","tipo":"multipla-multi","objetivo":"O4","dificuldade":"facil"}
Ao medir desempenho por subgrupo, quais cuidados a seção exige? (marque todos que valem)

- [ ] Declarar os subgrupos **antes** de olhar os resultados, para não caçar o recorte conveniente.
- [ ] Verificar se cada subgrupo tem gente suficiente para a estimativa significar algo.
- [ ] Reportar a matriz de confusão inteira por subgrupo, em vez de uma métrica agregada.
- [ ] Concluir que não há diferença quando um subgrupo pequeno não acusa diferença.

> **volte para:** #quando-o-teorema-diz-que-voce-tem-de-escolher
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e12","tipo":"multipla","objetivo":"O4","dificuldade":"dificil"}
Na animação deste capítulo, os três critérios acendem quando as prevalências se igualam. Que leitura prática isso autoriza?

- [ ] Que basta reamostrar os dados até as prevalências ficarem iguais, e o problema de justiça se resolve.
- [ ] Que a impossibilidade depende de uma condição do mundo, e não do modelo — o que explica por que a ação mais valiosa às vezes está fora do modelo.
- [ ] Que o teorema está errado, já que existe um caso em que os três valem.
- [ ] Que a calibração deixa de ser necessária quando as prevalências são iguais.

> **volte para:** #quando-o-teorema-diz-que-voce-tem-de-escolher
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

**4. Registrar.** Um **Model Card** documenta o modelo como um datasheet documenta o dado: uso pretendido, uso desaconselhado, desempenho desagregado por subgrupo e considerações éticas. O elo com o [capítulo I.3](i-3-dados.md) não é analogia — é a **mesma autora**: Timnit Gebru assina os dois, no mesmo ano. Documentar o dado e documentar o modelo são um projeto só.

E há uma quinta saída, legítima: **não lançar**. Desempenho bom no agregado e ruim num subgrupo que importa é motivo suficiente, e defender a recusa exige o mesmo aparato de defender o lançamento — ver [capítulo II.8](ii-8-do-modelo-a-decisao.md).

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e3","tipo":"aberta","objetivo":"O3","pontos":3,"dificuldade":"dificil"}
Um plano de saúde vai usar um escore para selecionar pacientes crônicos que entram num programa de acompanhamento intensivo — as vagas são limitadas e o programa reduz internações. A prevalência de complicação grave é **maior no grupo X** do que no grupo Y, por razões conhecidas de acesso histórico a atendimento.

A diretoria pede que o escore seja, ao mesmo tempo, **calibrado** (o mesmo escore significa a mesma probabilidade nos dois grupos) e **igualitário em oportunidade** (mesma taxa de acerto entre quem de fato vai complicar).

Escreva a resposta que você levaria à diretoria: explique por que o pedido é impossível como está, escolha **um** dos dois critérios, e diga **quem paga a conta** da sua escolha.

> **volte para:** #quando-o-teorema-diz-que-voce-tem-de-escolher
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

## Síntese — o que levar

- **Quando dois lados discordam com dados corretos, o desacordo é de definição, não de fato.** Procure a definição escondida antes de procurar o erro de conta.
- Interpretabilidade tem duas perguntas: **global** (como funciona) e **local** (por que este caso). A regulação cobra a local; os times entregam a global.
- **Explicação post-hoc é aproximação, não motivação.** SHAP soma exato — e soma exata é **coerência**, não veracidade, nem causalidade no mundo.
- Paridade demográfica, igualdade de oportunidade e calibração são **critérios rivais**. Exigir os três é exigir prevalências iguais.
- Com prevalências diferentes, **algum desequilíbrio de taxas de erro tem de existir**. É identidade, não descuido.
- A média esconde a decisão: reporte a **matriz de confusão por subgrupo**, com os subgrupos declarados antes de olhar o resultado.
- Escolha declarada é auditável; escolha calada é a mesma escolha, sem responsável. E **não lançar** continua sendo uma saída.
- **A matemática esperou o problema** — Shapley 1953, SHAP 2017, fórmula intacta.

:::exercicio {"id":"interpretabilidade-justica-e4","tipo":"aberta","objetivo":"O2","secao":"verificacao","pontos":3,"dificuldade":"dificil"}
**Desafio de fechamento.** Um colega mostra uma explicação SHAP de uma negativa de crédito e conclui: **"foi a renda que causou a recusa"**. Reescreva a frase de modo tecnicamente defensável, e diga o que se perde na versão original.

> **volte para:** #lime-e-shap-sem-formula
> _Gabarito, explicação e rubrica não vão neste arquivo. Quem corrige é o servidor, e a explicação completa é o que a segunda tentativa paga._
:::

## Verificação

1. Sua auditoria mostra que o modelo é bem calibrado nos dois grupos e que a taxa de falso positivo é o dobro em um deles. Um gestor pede que você "corrija o modelo até que as duas coisas fiquem iguais". O que você responde, e o que oferece no lugar?
2. Você precisa escolher entre um ensemble com desempenho superior e um modelo de regras ligeiramente pior, num domínio em que cada decisão negativa pode ser contestada individualmente. Que critérios usaria, e em que condição a escolha se inverteria?

> Estas duas não são corrigidas, e a omissão é deliberada: as duas são negociações, e negociação se ganha diante de quem pede a coisa impossível.
