Objetivos de aprendizagem
- O1. Identificar as três fontes de vazamento de dados mais comuns e como cada uma se manifesta.
- O2. Projetar uma divisão treino/validação/teste que respeite a estrutura temporal e de grupo dos dados.
- O3. Escrever uma ficha de dataset (origem, licença, limitações conhecidas) antes de treinar.
- O4. Diagnosticar desbalanceamento e viés de seleção a partir da própria coleta.
O problema: o resultado bom demais
O modelo aprende o que está nos dados — inclusive o que não deveria estar.
Vazamento de dados (data leakage) é a informação que existe no treino mas não existirá no momento da predição. Ele produz o resultado mais perigoso do Machine Learning: o resultado bom demais.
A assinatura é sempre a mesma, e você vai reconhecê-la depois deste capítulo:
- Alguém reporta uma métrica excelente — 0,97 de AUC num problema que ninguém resolvia.
- Ninguém desconfia, porque a notícia é boa e desconfiar de boa notícia é socialmente caro.
- O modelo vai a produção.
- O número desaba, e a investigação leva semanas.
O vazamento não dá erro. Não aparece em log, não quebra teste, e passa por todas as revisões de código — porque não é um bug de código. É um bug de tempo: uma coluna que só passa a existir depois do fato que você quer prever.
A heurística mais útil deste livro. Resultado surpreendentemente bom é a pista mais confiável de que algo está errado. Antes de comemorar, procure o vazamento. Se não achar, procure de novo — e só então comemore.
De onde isto veio
O aperto. Fim dos anos 2000, competições públicas de mineração de dados. Empresas e universidades passaram a publicar conjuntos de dados reais e premiar quem previsse melhor — e as competições começaram a quebrar, uma atrás da outra: INFORMS 2010, o desafio de rede social do IJCNN 2011, a KDD-Cup 2007 sobre o dado da Netflix. Não por trapaça: por vazamento.
O caso que virou emblema é a KDD Cup de 2008, de detecção de câncer em mamografia. Uma das colunas era o identificador do paciente — um número administrativo, sem nenhum conteúdo clínico. E ele tinha poder preditivo enorme.
O que se fazia antes. Tratava-se vazamento como descuido individual: alguém esqueceu de tirar uma coluna. Cada equipe descobria o seu, contava no corredor, e não havia vocabulário comum para o fenômeno.
A virada. Em 2012, Kaufman, Rosset, Perlich e Stitelman publicam "Leakage in Data Mining: Formulation, Detection, and Avoidance" e fazem o movimento que faltava: transformar uma coleção de acidentes numa categoria com definição, taxonomia e método de detecção. Vazamento deixa de ser azar e passa a ser algo que se procura de propósito.
A ideia reaproveitável — e é a que dá título a este capítulo. Desempenho alto demais é sintoma, não vitória. O identificador do paciente não sabia nada sobre câncer; sabia sobre como o hospital organizou a fila — que exames vinham de triagem de rotina e quais de encaminhamento suspeito. Todo vazamento é a mesma coisa dita de formas diferentes: o modelo aprendeu o processo de coleta em vez do fenômeno. Quando você vir um número bom demais, a pergunta não é "por que meu modelo é tão bom?", é "o que, no jeito como esses dados foram produzidos, está me entregando a resposta?".
O nome. Leakage — a informação "vaza" do futuro para o passado, atravessando a fronteira temporal que deveria separar o que se sabe do que se quer prever.
As fichas de dataset, e de onde a forma foi copiada
A ficha de dataset que este capítulo adota tem origem declarada, e ela não vem da computação. Gebru e coautoras propuseram os Datasheets for Datasets (2018; versão em CACM, 2021) fazendo uma analogia explícita com a indústria eletrônica, onde todo componente vem acompanhado de uma folha de dados descrevendo características de operação, resultados de teste e usos recomendados. A proposta é literalmente: por analogia, que todo conjunto de dados venha com a sua.
A ideia reaproveitável. Importar uma forma madura de outra engenharia é mais barato que inventar uma. A eletrônica levou décadas para padronizar o que entra numa folha de dados; Machine Learning copiou o formato pronto e ganhou o atalho. Vale olhar para os lados com mais frequência: o problema que parece novo no seu campo costuma ter uma solução estabilizada em outro.
Procedência das afirmações desta seção:
| Selo | Afirmação |
|---|---|
| ✓ᵐ | Kaufman, Rosset, Perlich & Stitelman, ACM TKDD 6(4), art. 15, 2012 — obra, autoria, ano e veículo. PDF localizado, não lido por inteiro |
| ✓ᵐ | Gebru et al., Datasheets for Datasets, arXiv:1803.09010, 23/03/2018; versão em CACM 64(12), 2021. A analogia com a eletrônica está declarada no resumo |
| ⏳ | As competições citadas como gatilho (INFORMS 2010, IJCNN 2011, KDD-Cup 2007) e o caso do Patient ID na KDD Cup 2008 |
| ⏳ | A explicação de por que o identificador previa — a organização da fila do hospital. É a leitura corrente do caso; não conferida na primária |
| ❌ | Datasets clássicos que envelheceram mal por viés de seleção ou por questões éticas: casos existem e são citados na literatura, mas nenhum foi verificado nesta passada, e por isso nenhum é nomeado aqui |
| 📖 | As duas ideias reaproveitáveis |
Fundamentos: as três fontes de vazamento
1. Alvo disfarçado — a coluna que só existe depois
A mais comum e a mais constrangedora. Um atributo que, na prática, é uma versão do alvo.
| Você quer prever | A coluna traiçoeira | Por que é vazamento |
|---|---|---|
| Se o cliente vai cancelar | motivo_cancelamento |
só é preenchida depois do cancelamento |
| Se a transação é fraude | valor_estornado |
o estorno acontece após a fraude ser detectada |
| Se o paciente tem a doença | medicamento_prescrito |
a prescrição vem depois do diagnóstico |
| Se a máquina vai falhar | data_da_manutencao_corretiva |
a corretiva é consequência da falha |
O teste é uma pergunta só, e ela precisa ser feita para cada coluna:
No instante exato em que eu preciso fazer a predição, este valor já existe e já está preenchido?
Se a resposta for "não" ou "depende", a coluna sai. Fazer essa pergunta coluna a coluna parece burocracia até a primeira vez que ela salva um projeto.
2. Pré-processamento antes da divisão — o vazamento silencioso
Este é sutil, quase universal entre iniciantes, e não tem sintoma visível.
# ERRADO — e ninguém percebe olhando
X = normalizar(X) # usa média e desvio de TUDO
treino, teste = dividir(X) # tarde demais
# CERTO
treino, teste = dividir(X)
media, desvio = ajustar_normalizador(treino) # aprende SÓ no treino
treino = aplicar(treino, media, desvio)
teste = aplicar(teste, media, desvio) # aplica o que veio do treino
Na versão errada, a média usada para normalizar o treino contém informação dos exemplos de teste. O modelo nunca viu as linhas do teste, mas viu uma estatística delas — e isso basta para inflar a métrica.
Vale para tudo que "aprende" alguma coisa dos dados: normalização, imputação de ausentes, seleção de atributos, codificação por alvo (target encoding), redução de dimensionalidade. A regra é única e não tem exceção:
Tudo que aprende dos dados aprende só do treino. O teste é aplicado, nunca consultado.
O efeito costuma ser pequeno — décimos de ponto. É justamente por isso que é perigoso: pequeno demais para levantar suspeita, grande o bastante para decidir qual modelo vai a produção.
3. Duplicata entre conjuntos — o modelo que já viu a prova
Se o mesmo exemplo, ou um quase-idêntico, aparece nos dois lados da divisão, o teste deixou de medir generalização e passou a medir memória.
Acontece mais do que se imagina:
- Duplicatas exatas na base (o mesmo registro importado duas vezes).
- Quase-duplicatas: o mesmo cliente em dois meses, a mesma notícia republicada, a mesma foto redimensionada.
- Múltiplas linhas do mesmo sujeito: dez transações de um cliente, cinco exames de um paciente, vinte sensores da mesma máquina.
O terceiro caso é o que mais engana, porque não parece duplicata — são linhas genuinamente diferentes. Mas se o modelo aprende a reconhecer o cliente em vez de o comportamento, ele vai bem no teste e mal com clientes novos, que é a única coisa que importa.
02-e1escolha umaUma equipe prevê inadimplência em 30 dias. O modelo atinge 0,96 de AUC — três vezes melhor que qualquer tentativa anterior. Entre os atributos está dias_de_atraso_atual. Qual é a leitura mais provável?
02-e2escolha todas que valemQuais destas práticas introduzem vazamento? (marque todas que valem)
A divisão que respeita a estrutura dos dados
Embaralhar e cortar é o padrão — e está errado sempre que os dados têm estrutura. Duas estruturas importam.
Tempo: nunca embaralhe uma série
Se você quer prever o futuro, treine no passado e teste no futuro. Embaralhar uma série temporal permite que o modelo treine com dados de dezembro para prever junho, o que é uma máquina do tempo que produção não terá.
❌ embaralhado: [J F M A M J J A S O N D] → treino e teste misturados
✅ temporal: [J F M A M J J A S] treino [O N D] teste
E há um detalhe que quase todo mundo esquece: o intervalo de guarda. Se você prevê 30 dias à frente, os últimos 30 dias do treino contêm informação que se sobrepõe ao início do teste. Descarte-os. Perder um mês de treino é barato; descobrir em produção que a métrica era otimista, não.
Grupo: o mesmo sujeito não pode estar nos dois lados
Se a base tem várias linhas por cliente, paciente ou máquina, a divisão é por sujeito, não por linha. Todas as linhas do cliente 4711 vão para o treino, ou todas vão para o teste — nunca umas em cada.
A pergunta que decide isso é: o que vai ser novo em produção? Se o sistema vai atender clientes que ele nunca viu, o teste precisa conter clientes que o treino nunca viu. Se ele vai atender os mesmos clientes de sempre em situações novas, aí a divisão por linha é defensável — mas essa decisão precisa ser declarada, não herdada do train_test_split padrão.
E a estratificação
Preservar a proporção de classes nos três conjuntos. Barato, quase sempre certo, e imprescindível quando a classe positiva é rara: sem ela, o teste pode acabar com um punhado de positivos e a métrica vira loteria — o problema que o capítulo 04 trata com intervalo de confiança.
Atenção à ordem de precedência. Quando há tempo e grupo e desbalanceamento, tempo manda. Não se estratifica uma série temporal: forçar a proporção de classes no futuro é assumir que você já sabe qual será ela — e essa é a coisa que você está tentando descobrir.
02-e3escolha umaUm hospital quer prever readmissão em 30 dias. A base tem 50.000 internações de 12.000 pacientes, coletadas ao longo de 4 anos. O sistema vai atender pacientes que chegam pela primeira vez. Qual divisão é a correta?
A ficha de dataset
Antes de treinar, escreva uma página sobre os dados. Não é burocracia: é o único momento em que alguém olha para a origem em vez de olhar para as colunas.
A prática vem de Datasheets for Datasets (Gebru et al.) e este livro adota uma versão mínima, de sete perguntas:
| # | Pergunta | Por que importa |
|---|---|---|
| 1 | Quem coletou, quando e para quê? | dado coletado para outro fim carrega o viés daquele fim |
| 2 | Como um exemplo entrou na base? | é aqui que mora o viés de seleção |
| 3 | Qual é a licença? | uso comercial pode ser proibido, e ninguém descobre isso tarde de graça |
| 4 | Há dado pessoal? | se há, ou anonimiza ou não entra (Princípio V) |
| 5 | Como o alvo foi rotulado? | rótulo humano tem taxa de erro; rótulo automático tem a regra que o gerou |
| 6 | O que se sabe que está errado? | toda base tem defeitos conhecidos; não registrá-los é fingir que não existem |
| 7 | Quando expira? | população, comportamento e instrumentação mudam |
A pergunta 5 merece um parágrafo. Se o alvo foi rotulado por uma regra automática, o modelo vai aprender a regra, não o fenômeno — e o teto de desempenho dele é a qualidade daquela regra. É comum descobrir, tarde, que "fraude" na base significa "o que o sistema antigo marcou como fraude", e que o modelo novo foi treinado para imitar o velho.
O viés de seleção: aprender com quem já está lá
O desbalanceamento é o problema fácil: uma classe é rara, e o capítulo 04 já mostrou como medir sem se enganar.
O problema difícil é o viés de seleção — quando a forma como os exemplos entraram na base não representa a população em que o modelo vai operar.
O caso clássico e cruel: um banco quer prever inadimplência e treina com o histórico dos clientes a quem concedeu crédito. Mas quem recebeu crédito passou por um filtro — o modelo antigo, ou o gerente. Os dados não contêm os que foram recusados, e são exatamente esses que o novo modelo precisa avaliar. O sistema aprende sobre uma população que já foi filtrada por ele mesmo, e fica cada vez mais confiante sobre uma fatia cada vez mais estreita do mundo.
Isso tem nome — feedback loop — e o capítulo 15 trata das consequências arquiteturais. Aqui basta o diagnóstico e o gesto mínimo: reservar uma fração pequena de decisões aleatórias, fora da recomendação do modelo, para manter a base honesta. Custa dinheiro. É o preço de continuar aprendendo.
02-e4responda com suas palavrasVocê recebeu uma base de 200.000 avaliações de produtos, rotuladas como "positiva" ou "negativa", para treinar um classificador de sentimento. O rótulo foi gerado automaticamente: avaliações de 4–5 estrelas viraram "positiva", de 1–2 estrelas viraram "negativa", e as de 3 estrelas foram descartadas.
Escreva as três perguntas mais importantes que você faria antes de treinar, e diga o que cada resposta mudaria na sua decisão.
Mão na massa
A etapa 02 do ml-zero implementa o que este capítulo argumenta, em biblioteca padrão pura:
detectar_vazamento_obvio— procura colunas suspeitas de serem o alvo disfarçado, por correlação quase perfeita e por preenchimento condicionado ao alvo;dividir_por_grupo— garante que nenhum sujeito apareça em dois conjuntos;dividir_por_tempo— corte temporal com intervalo de guarda;checar_duplicatas— exatas e quase-exatas entre conjuntos;FichaDeDataset— as sete perguntas como estrutura executável, que falha se ficarem sem resposta.
O item 5 é o mais incomum e o mais útil: a ficha não é um documento que alguém promete escrever, é um objeto que o pipeline recusa se estiver incompleto.
Notebook pronto para executar — vazamento.ipynb · abrir no Colab
Os três vazamentos, em execução: a coluna que sabe demais, a divisão que respeita grupos e a que respeita o tempo. Traz de brinde a razão de o exemplo ter 200 linhas e não 10 — com poucas linhas qualquer coluna separa perfeitamente por acaso, e o detector acusaria todas.
Na sua máquina:
pip install notebookejupyter notebook, ou abra a pasta no VS Code. O notebook não precisa do repositório clonado — se você estiver no Colab, ele baixa sozinho os arquivos de que precisa. Como rodar a trilha inteira:ml-zero.
Assista
O texto acima argumenta por que a divisão precisa respeitar a estrutura; este vídeo mostra a mecânica de dividir e de rodar validação cruzada, com os blocos se movendo na tela. Vale como base concreta antes do exercício 02-e3 — e repare, enquanto assiste, que a animação assume dados sem estrutura temporal nem de grupo. É o caso mais simples, e é por isso que ele é o mais ensinado.
O vídeo só é pedido ao servidor de origem depois deste clique.
Síntese — o que levar
- Resultado bom demais é pista de vazamento, não motivo de comemoração.
- Faça a pergunta da coluna, uma por uma: no instante da predição, este valor já existe?
- Tudo que aprende dos dados aprende só do treino. Normalização, imputação, seleção, target encoding.
- Divisão respeita a estrutura: tempo manda sobre grupo, que manda sobre estratificação.
- Escreva a ficha antes de treinar. A pergunta 5 — como o alvo foi rotulado — é a que mais surpreende.
- Sua base tem o viés do filtro que a criou. Se o filtro foi o próprio sistema, o problema se agrava sozinho.
Verificação
- Explique a diferença entre vazamento e overfitting em termos das assinaturas que cada um deixa nas curvas de treino e validação.
- Você tem 3 anos de transações de 5.000 lojas e quer prever venda da próxima semana. Descreva a divisão e justifique cada decisão.
- Um colega diz: "normalizei tudo antes de dividir, mas o efeito é minúsculo, não muda nada". O que você responde?