Parte I — Ciência de Dados: do dado ao entendimento · Cap. 02

Qualidade e Vazamento

O resultado bom demais, e as divisões que não mentem.

◐ essencial🕒 estado da arte 2026-08revisão 2026-08-05📖 ~19 min de leitura🎯 4 exercícios🎬 1 vídeos⬇ md

Objetivos de aprendizagem

  • O1. Identificar as três fontes de vazamento de dados mais comuns e como cada uma se manifesta.
  • O2. Projetar uma divisão treino/validação/teste que respeite a estrutura temporal e de grupo dos dados.
  • O3. Escrever uma ficha de dataset (origem, licença, limitações conhecidas) antes de treinar.
  • O4. Diagnosticar desbalanceamento e viés de seleção a partir da própria coleta.

O problema: o resultado bom demais

O modelo aprende o que está nos dados — inclusive o que não deveria estar.

Vazamento de dados (data leakage) é a informação que existe no treino mas não existirá no momento da predição. Ele produz o resultado mais perigoso do Machine Learning: o resultado bom demais.

A assinatura é sempre a mesma, e você vai reconhecê-la depois deste capítulo:

  1. Alguém reporta uma métrica excelente — 0,97 de AUC num problema que ninguém resolvia.
  2. Ninguém desconfia, porque a notícia é boa e desconfiar de boa notícia é socialmente caro.
  3. O modelo vai a produção.
  4. O número desaba, e a investigação leva semanas.

O vazamento não dá erro. Não aparece em log, não quebra teste, e passa por todas as revisões de código — porque não é um bug de código. É um bug de tempo: uma coluna que só passa a existir depois do fato que você quer prever.

A heurística mais útil deste livro. Resultado surpreendentemente bom é a pista mais confiável de que algo está errado. Antes de comemorar, procure o vazamento. Se não achar, procure de novo — e só então comemore.

De onde isto veio

O aperto. Fim dos anos 2000, competições públicas de mineração de dados. Empresas e universidades passaram a publicar conjuntos de dados reais e premiar quem previsse melhor — e as competições começaram a quebrar, uma atrás da outra: INFORMS 2010, o desafio de rede social do IJCNN 2011, a KDD-Cup 2007 sobre o dado da Netflix. Não por trapaça: por vazamento.

O caso que virou emblema é a KDD Cup de 2008, de detecção de câncer em mamografia. Uma das colunas era o identificador do paciente — um número administrativo, sem nenhum conteúdo clínico. E ele tinha poder preditivo enorme.

O que se fazia antes. Tratava-se vazamento como descuido individual: alguém esqueceu de tirar uma coluna. Cada equipe descobria o seu, contava no corredor, e não havia vocabulário comum para o fenômeno.

A virada. Em 2012, Kaufman, Rosset, Perlich e Stitelman publicam "Leakage in Data Mining: Formulation, Detection, and Avoidance" e fazem o movimento que faltava: transformar uma coleção de acidentes numa categoria com definição, taxonomia e método de detecção. Vazamento deixa de ser azar e passa a ser algo que se procura de propósito.

A ideia reaproveitável — e é a que dá título a este capítulo. Desempenho alto demais é sintoma, não vitória. O identificador do paciente não sabia nada sobre câncer; sabia sobre como o hospital organizou a fila — que exames vinham de triagem de rotina e quais de encaminhamento suspeito. Todo vazamento é a mesma coisa dita de formas diferentes: o modelo aprendeu o processo de coleta em vez do fenômeno. Quando você vir um número bom demais, a pergunta não é "por que meu modelo é tão bom?", é "o que, no jeito como esses dados foram produzidos, está me entregando a resposta?".

O nome. Leakage — a informação "vaza" do futuro para o passado, atravessando a fronteira temporal que deveria separar o que se sabe do que se quer prever.

As fichas de dataset, e de onde a forma foi copiada

A ficha de dataset que este capítulo adota tem origem declarada, e ela não vem da computação. Gebru e coautoras propuseram os Datasheets for Datasets (2018; versão em CACM, 2021) fazendo uma analogia explícita com a indústria eletrônica, onde todo componente vem acompanhado de uma folha de dados descrevendo características de operação, resultados de teste e usos recomendados. A proposta é literalmente: por analogia, que todo conjunto de dados venha com a sua.

A ideia reaproveitável. Importar uma forma madura de outra engenharia é mais barato que inventar uma. A eletrônica levou décadas para padronizar o que entra numa folha de dados; Machine Learning copiou o formato pronto e ganhou o atalho. Vale olhar para os lados com mais frequência: o problema que parece novo no seu campo costuma ter uma solução estabilizada em outro.

Procedência das afirmações desta seção:

Selo Afirmação
✓ᵐ Kaufman, Rosset, Perlich & Stitelman, ACM TKDD 6(4), art. 15, 2012 — obra, autoria, ano e veículo. PDF localizado, não lido por inteiro
✓ᵐ Gebru et al., Datasheets for Datasets, arXiv:1803.09010, 23/03/2018; versão em CACM 64(12), 2021. A analogia com a eletrônica está declarada no resumo
As competições citadas como gatilho (INFORMS 2010, IJCNN 2011, KDD-Cup 2007) e o caso do Patient ID na KDD Cup 2008
A explicação de por que o identificador previa — a organização da fila do hospital. É a leitura corrente do caso; não conferida na primária
Datasets clássicos que envelheceram mal por viés de seleção ou por questões éticas: casos existem e são citados na literatura, mas nenhum foi verificado nesta passada, e por isso nenhum é nomeado aqui
📖 As duas ideias reaproveitáveis

Fundamentos: as três fontes de vazamento

1. Alvo disfarçado — a coluna que só existe depois

A mais comum e a mais constrangedora. Um atributo que, na prática, é uma versão do alvo.

Você quer prever A coluna traiçoeira Por que é vazamento
Se o cliente vai cancelar motivo_cancelamento só é preenchida depois do cancelamento
Se a transação é fraude valor_estornado o estorno acontece após a fraude ser detectada
Se o paciente tem a doença medicamento_prescrito a prescrição vem depois do diagnóstico
Se a máquina vai falhar data_da_manutencao_corretiva a corretiva é consequência da falha

O teste é uma pergunta só, e ela precisa ser feita para cada coluna:

No instante exato em que eu preciso fazer a predição, este valor já existe e já está preenchido?

Se a resposta for "não" ou "depende", a coluna sai. Fazer essa pergunta coluna a coluna parece burocracia até a primeira vez que ela salva um projeto.

2. Pré-processamento antes da divisão — o vazamento silencioso

Este é sutil, quase universal entre iniciantes, e não tem sintoma visível.

# ERRADO — e ninguém percebe olhando
X = normalizar(X)                              # usa média e desvio de TUDO
treino, teste = dividir(X)                     # tarde demais

# CERTO
treino, teste = dividir(X)
media, desvio = ajustar_normalizador(treino)   # aprende SÓ no treino
treino = aplicar(treino, media, desvio)
teste  = aplicar(teste,  media, desvio)        # aplica o que veio do treino

Na versão errada, a média usada para normalizar o treino contém informação dos exemplos de teste. O modelo nunca viu as linhas do teste, mas viu uma estatística delas — e isso basta para inflar a métrica.

Vale para tudo que "aprende" alguma coisa dos dados: normalização, imputação de ausentes, seleção de atributos, codificação por alvo (target encoding), redução de dimensionalidade. A regra é única e não tem exceção:

Tudo que aprende dos dados aprende só do treino. O teste é aplicado, nunca consultado.

O efeito costuma ser pequeno — décimos de ponto. É justamente por isso que é perigoso: pequeno demais para levantar suspeita, grande o bastante para decidir qual modelo vai a produção.

3. Duplicata entre conjuntos — o modelo que já viu a prova

Se o mesmo exemplo, ou um quase-idêntico, aparece nos dois lados da divisão, o teste deixou de medir generalização e passou a medir memória.

Acontece mais do que se imagina:

  • Duplicatas exatas na base (o mesmo registro importado duas vezes).
  • Quase-duplicatas: o mesmo cliente em dois meses, a mesma notícia republicada, a mesma foto redimensionada.
  • Múltiplas linhas do mesmo sujeito: dez transações de um cliente, cinco exames de um paciente, vinte sensores da mesma máquina.

O terceiro caso é o que mais engana, porque não parece duplicata — são linhas genuinamente diferentes. Mas se o modelo aprende a reconhecer o cliente em vez de o comportamento, ele vai bem no teste e mal com clientes novos, que é a única coisa que importa.

Exercício02-e1escolha uma

Uma equipe prevê inadimplência em 30 dias. O modelo atinge 0,96 de AUC — três vezes melhor que qualquer tentativa anterior. Entre os atributos está dias_de_atraso_atual. Qual é a leitura mais provável?

Exercício02-e2escolha todas que valem

Quais destas práticas introduzem vazamento? (marque todas que valem)

A divisão que respeita a estrutura dos dados

Embaralhar e cortar é o padrão — e está errado sempre que os dados têm estrutura. Duas estruturas importam.

Tempo: nunca embaralhe uma série

Se você quer prever o futuro, treine no passado e teste no futuro. Embaralhar uma série temporal permite que o modelo treine com dados de dezembro para prever junho, o que é uma máquina do tempo que produção não terá.

❌ embaralhado:  [J F M A M J J A S O N D]  →  treino e teste misturados
✅ temporal:     [J F M A M J J A S] treino  [O N D] teste

E há um detalhe que quase todo mundo esquece: o intervalo de guarda. Se você prevê 30 dias à frente, os últimos 30 dias do treino contêm informação que se sobrepõe ao início do teste. Descarte-os. Perder um mês de treino é barato; descobrir em produção que a métrica era otimista, não.

Grupo: o mesmo sujeito não pode estar nos dois lados

Se a base tem várias linhas por cliente, paciente ou máquina, a divisão é por sujeito, não por linha. Todas as linhas do cliente 4711 vão para o treino, ou todas vão para o teste — nunca umas em cada.

A pergunta que decide isso é: o que vai ser novo em produção? Se o sistema vai atender clientes que ele nunca viu, o teste precisa conter clientes que o treino nunca viu. Se ele vai atender os mesmos clientes de sempre em situações novas, aí a divisão por linha é defensável — mas essa decisão precisa ser declarada, não herdada do train_test_split padrão.

E a estratificação

Preservar a proporção de classes nos três conjuntos. Barato, quase sempre certo, e imprescindível quando a classe positiva é rara: sem ela, o teste pode acabar com um punhado de positivos e a métrica vira loteria — o problema que o capítulo 04 trata com intervalo de confiança.

Atenção à ordem de precedência. Quando há tempo e grupo e desbalanceamento, tempo manda. Não se estratifica uma série temporal: forçar a proporção de classes no futuro é assumir que você já sabe qual será ela — e essa é a coisa que você está tentando descobrir.

Exercício02-e3escolha uma

Um hospital quer prever readmissão em 30 dias. A base tem 50.000 internações de 12.000 pacientes, coletadas ao longo de 4 anos. O sistema vai atender pacientes que chegam pela primeira vez. Qual divisão é a correta?

A ficha de dataset

Antes de treinar, escreva uma página sobre os dados. Não é burocracia: é o único momento em que alguém olha para a origem em vez de olhar para as colunas.

A prática vem de Datasheets for Datasets (Gebru et al.) e este livro adota uma versão mínima, de sete perguntas:

# Pergunta Por que importa
1 Quem coletou, quando e para quê? dado coletado para outro fim carrega o viés daquele fim
2 Como um exemplo entrou na base? é aqui que mora o viés de seleção
3 Qual é a licença? uso comercial pode ser proibido, e ninguém descobre isso tarde de graça
4 Há dado pessoal? se há, ou anonimiza ou não entra (Princípio V)
5 Como o alvo foi rotulado? rótulo humano tem taxa de erro; rótulo automático tem a regra que o gerou
6 O que se sabe que está errado? toda base tem defeitos conhecidos; não registrá-los é fingir que não existem
7 Quando expira? população, comportamento e instrumentação mudam

A pergunta 5 merece um parágrafo. Se o alvo foi rotulado por uma regra automática, o modelo vai aprender a regra, não o fenômeno — e o teto de desempenho dele é a qualidade daquela regra. É comum descobrir, tarde, que "fraude" na base significa "o que o sistema antigo marcou como fraude", e que o modelo novo foi treinado para imitar o velho.

O viés de seleção: aprender com quem já está lá

O desbalanceamento é o problema fácil: uma classe é rara, e o capítulo 04 já mostrou como medir sem se enganar.

O problema difícil é o viés de seleção — quando a forma como os exemplos entraram na base não representa a população em que o modelo vai operar.

O caso clássico e cruel: um banco quer prever inadimplência e treina com o histórico dos clientes a quem concedeu crédito. Mas quem recebeu crédito passou por um filtro — o modelo antigo, ou o gerente. Os dados não contêm os que foram recusados, e são exatamente esses que o novo modelo precisa avaliar. O sistema aprende sobre uma população que já foi filtrada por ele mesmo, e fica cada vez mais confiante sobre uma fatia cada vez mais estreita do mundo.

Isso tem nome — feedback loop — e o capítulo 15 trata das consequências arquiteturais. Aqui basta o diagnóstico e o gesto mínimo: reservar uma fração pequena de decisões aleatórias, fora da recomendação do modelo, para manter a base honesta. Custa dinheiro. É o preço de continuar aprendendo.

Exercício02-e4responda com suas palavras

Você recebeu uma base de 200.000 avaliações de produtos, rotuladas como "positiva" ou "negativa", para treinar um classificador de sentimento. O rótulo foi gerado automaticamente: avaliações de 4–5 estrelas viraram "positiva", de 1–2 estrelas viraram "negativa", e as de 3 estrelas foram descartadas.

Escreva as três perguntas mais importantes que você faria antes de treinar, e diga o que cada resposta mudaria na sua decisão.

Mão na massa

A etapa 02 do ml-zero implementa o que este capítulo argumenta, em biblioteca padrão pura:

  1. detectar_vazamento_obvio — procura colunas suspeitas de serem o alvo disfarçado, por correlação quase perfeita e por preenchimento condicionado ao alvo;
  2. dividir_por_grupo — garante que nenhum sujeito apareça em dois conjuntos;
  3. dividir_por_tempo — corte temporal com intervalo de guarda;
  4. checar_duplicatas — exatas e quase-exatas entre conjuntos;
  5. FichaDeDataset — as sete perguntas como estrutura executável, que falha se ficarem sem resposta.

O item 5 é o mais incomum e o mais útil: a ficha não é um documento que alguém promete escrever, é um objeto que o pipeline recusa se estiver incompleto.

Notebook pronto para executarvazamento.ipynb · abrir no Colab

Os três vazamentos, em execução: a coluna que sabe demais, a divisão que respeita grupos e a que respeita o tempo. Traz de brinde a razão de o exemplo ter 200 linhas e não 10 — com poucas linhas qualquer coluna separa perfeitamente por acaso, e o detector acusaria todas.

Na sua máquina: pip install notebook e jupyter notebook, ou abra a pasta no VS Code. O notebook não precisa do repositório clonado — se você estiver no Colab, ele baixa sozinho os arquivos de que precisa. Como rodar a trilha inteira: ml-zero.

Assista

VídeoMachine Learning Fundamentals: Cross ValidationStatQuest with Josh Starmer6 min

O texto acima argumenta por que a divisão precisa respeitar a estrutura; este vídeo mostra a mecânica de dividir e de rodar validação cruzada, com os blocos se movendo na tela. Vale como base concreta antes do exercício 02-e3 — e repare, enquanto assiste, que a animação assume dados sem estrutura temporal nem de grupo. É o caso mais simples, e é por isso que ele é o mais ensinado.

O vídeo só é pedido ao servidor de origem depois deste clique.

Síntese — o que levar

  • Resultado bom demais é pista de vazamento, não motivo de comemoração.
  • Faça a pergunta da coluna, uma por uma: no instante da predição, este valor já existe?
  • Tudo que aprende dos dados aprende só do treino. Normalização, imputação, seleção, target encoding.
  • Divisão respeita a estrutura: tempo manda sobre grupo, que manda sobre estratificação.
  • Escreva a ficha antes de treinar. A pergunta 5 — como o alvo foi rotulado — é a que mais surpreende.
  • Sua base tem o viés do filtro que a criou. Se o filtro foi o próprio sistema, o problema se agrava sozinho.

Verificação

  1. Explique a diferença entre vazamento e overfitting em termos das assinaturas que cada um deixa nas curvas de treino e validação.
  2. Você tem 3 anos de transações de 5.000 lojas e quer prever venda da próxima semana. Descreva a divisão e justifique cada decisão.
  3. Um colega diz: "normalizei tudo antes de dividir, mas o efeito é minúsculo, não muda nada". O que você responde?