Guia Editorial — regras operacionais do livro
Versão operacional das orientações pedagógicas. A lei está na constituição; este guia é o que se consulta enquanto escreve.
1. O framework pedagógico em quatro linhas
| Framework | O que dita no livro |
|---|---|
| Backward Design | Todo capítulo se projeta de trás para frente: objetivos → evidências (exercícios/verificação) → só então o conteúdo |
| 4C/ID | Etapas do ml-zero = tarefas inteiras; capítulos = informação de apoio; boxes no código = just-in-time; exercícios = treino de parte |
| Diátaxis | Quatro tipos de texto, nunca misturados na mesma seção: capítulo=explanation, ml-zero=tutorial, banco/fichas=reference, receitas=how-to |
| Carga Cognitiva | Worked example antes do exercício; exercícios são "complete", não "crie do zero"; andaime diminui capítulo a capítulo; uma ideia nova por vez |
2. Esqueleto v5 de capítulo (obrigatório)
O v5 é o v4 mais a seção histórica que o Princípio X tornou obrigatória. O v4, por sua vez, era o esqueleto v3 do livro de Engenharia de Harness mais as duas seções de interatividade. A ordem não é decorativa: ela é o Backward Design tornado sumário.
- Objetivos de aprendizagem — 3–5, verbos de Bloom (explicar, comparar, implementar, avaliar), numerados
**O1.**,**O2.**… Os identificadores são reais: cada exercício aponta para um deles, e o build falha se apontar para um que não existe. - O problema — por que este assunto existe. Comece pelo erro que alguém comete sem ele.
- De onde isto veio — a história do método, em cinco elementos: o aperto (quem estava preso, em quê, quando) · o que se fazia antes · a virada (a ideia que destravou, sem notação) · a ideia reaproveitável (o padrão que serve fora deste método) · o nome. Fecha com a tabela de selos (✓ / ✓ᵐ / ⏳ / ❌ / 📖). Ver §2.4 e o Princípio X.
- Fundamentos — a intuição, depois a matemática, depois o código. Nunca a fórmula sozinha.
- Fundamentos científicos — 2–4 papers traduzidos para decisões ("o resultado X significa que, na prática, você deve Y"); ponteiro para
bibliografia.md. - O estado da arte — o que é consenso hoje, o que está em disputa, e a cláusula de expiração do capítulo.
- Mão na massa — a etapa correspondente do
ml-zero, com o experimento que gera os números citados. - Pratique — os exercícios (mínimo 3). Ver §4.
- Assista — os vídeos curados (mínimo 1) ou o laboratório. Ver §5 e §2.3.
- Síntese + "o que levar" — leitura executiva e as ideias exportáveis para o trabalho do leitor.
- Verificação — 2–3 perguntas abertas que testam exatamente os objetivos do item 1.
A posição do item 3 é a regra, não sugestão: depois do problema e antes da intuição. Antes do problema, a história não tem a que se agarrar; depois da fórmula, o leitor já pulou.
2.1 Cabeçalho obrigatório
# 04 — Avaliação
> **Estado da arte capturado em 2026-08** · última revisão 2026-08-01 · [histórico](../HISTORICO.md)
O selo diz ao leitor se a seção "estado da arte" está fresca — o que a data de um evento citado no corpo não faz.
2.2 Níveis de maturidade
Todo capítulo declara seu nível no cabeçalho, logo abaixo da data. O leitor sempre sabe o que está lendo.
| Nível | Garante | Selo no cabeçalho |
|---|---|---|
| esqueleto | objetivos e problema | ⚠ aviso em destaque |
| essencial | corpo ensinável, ≥2 exercícios, síntese, verificação | nota discreta |
| completo | os sete itens do portão (§9) | sem aviso |
Por que existe. O livro serve a disciplinas em andamento: um capítulo que existe de forma honesta vale mais ao estudante do que um capítulo ausente. Mas cobertura sem rigor é o que este projeto recusa — então o nível é declarado, nunca silencioso. Baixar o rigor sem avisar seria fraude; declarar cria a dívida visível que o roadmap cobra.
Como promover. esqueleto → essencial é um ciclo de escrita; essencial → completo é um ciclo de aprofundamento (experimento próprio, fontes ✓, cláusula de expiração, revisão developmental). Cada promoção é uma spec.
2.3 Laboratórios interativos
A terceira superfície do livro, ao lado de exercício e vídeo:
| Superfície | O que faz | Precisa de backend? |
|---|---|---|
| Exercício | pergunta e corrige, com feedback que explica | sim |
| Vídeo | mostra o que a prosa não mostra | não |
| Laboratório | deixa manipular | não |
Um laboratório roda inteiro no navegador. Não há gabarito a esconder — o gabarito é o comportamento do próprio objeto. Isso o torna a superfície mais robusta do livro: funciona mesmo com o backend fora do ar.
Regras de autoria:
- O bloco declara o que manipular ali ensina e, sobretudo, o que o leitor deve descobrir sozinho. Um laboratório que explica antes de deixar brincar desperdiça o próprio mecanismo.
- Ponha o laboratório antes da explicação, não depois. A descoberta vem primeiro; o texto confirma e nomeia.
- Prefira laboratórios em que o fracasso ensine. O melhor exemplo do livro é o XOR no capítulo 18: o leitor trava em 3 de 4 e descobre a impossibilidade com as próprias mãos — o que nenhuma frase entrega.
- Quando não houver vídeo verificável para um tema, o laboratório cumpre a cota de mídia. Inventar uma referência para preencher cota é violação do Princípio I.
Sintaxe em BANCO-DE-EXERCICIOS.md; os widgets vivem em publicar/tema/laboratorios.js.
2.4 "De onde isto veio" — como se escreve
Materializa o Princípio X. Portão do nível essencial, para todo capítulo de método.
Os cinco elementos, nesta ordem. O aperto (quem, em quê, quando — gente e data, não "os pesquisadores") · o que se fazia antes (contra o quê o método compete) · a virada (a ideia que destravou, em linguagem natural, sem notação) · a ideia reaproveitável · o nome, se tiver origem.
O quarto elemento é a razão de a seção existir. Todo artifício técnico declara a ideia reaproveitável que há por trás dele: artifício sem ideia é truque, e truque não se transfere. Se você não consegue escrever esse parágrafo, ou ainda não entendeu o método, ou ele não merece capítulo.
A tabela de selos fecha a seção. Uma linha por afirmação histórica:
| Selo | Significa | Erro que ele previne |
|---|---|---|
| ✓ | fonte aberta e lida | — |
| ✓ᵐ | só os metadados conferidos (autor, obra, ano, DOI) | confundir "existe e é este artigo" com "eu li e diz isso" |
| ⏳ | atribuição corrente, não confirmada em primária | repetir o que "todo mundo diz" como se fosse conferido |
| ❌ | procurei e não achei | preencher a lacuna com suposição plausível |
| 📖 | leitura editorial deste livro | vender interpretação como fato histórico |
Conferir um DOI dá ✓ᵐ, nunca ✓. Diferente da legenda de bibliografia.md, que responde a outra pergunta ("esta referência pode sustentar uma afirmação?"): lá um ✓ conferido só por identificador equivale a ✓ᵐ aqui.
❌ é permitido e às vezes é o melhor que há. Exemplo real, no capítulo 18: a atribuição do backpropagation a "um italiano em 1979" não foi confirmada — o capítulo diz que procurou e não achou, e lista o que existe (Linnainmaa 1970, Werbos 1974, Fukushima 1979/80). Lacuna admitida em voz alta vale mais que suposição com cara de fato.
Três proibições. Gênio solitário (história ruim e geralmente falsa: métodos nascem de instituições, encomendas, prazos e restrições materiais — e é isso que ensina) · curiosidade decorativa (se o parágrafo sai sem o leitor perder compreensão ou julgamento, é enfeite) · misturar registro ("a literatura atribui a X" ≠ "X publicou em 19NN", e as duas não podem parecer iguais no texto).
Pesquise de uma vez, não capítulo a capítulo. A pesquisa histórica vai numa sessão própria, com nota em estudos/ e fila de verificação ao final, ordenada por dúvida fechada por unidade de esforço. As histórias se conectam, e quem descobre a conexão depois já publicou os dois lados sem ela.
Duas armadilhas. Resumo de busca não é fonte — nem para confirmar nem para desmentir; um resumo pode abreviar o original a ponto de um fato correto parecer errado, e corrigir a partir dele introduz o erro que você achava estar consertando. Ler a fonte também serve para achar o que você não sabia que estava lá — as melhores histórias estão no parágrafo que ninguém resumiu.
O teste: o leitor termina a seção querendo continuar. Um livro técnico compete com a tentação de pular para a fórmula; a história é o que dá ao leitor um motivo para não pular.
3. Regras de escrita permanentes
- Evidência por experimento: toda afirmação empírica cita o script que a produziu (
ml-zero/etapa-04/experimento.py), com dataset, seed e versão da biblioteca. Sem isso, é intuição — e se escreve como intuição. - Nenhum número sem procedência. Nem "cerca de 90%", nem "costuma dobrar". Ou mede, ou cita, ou não afirma.
- Intuição → matemática → código, nessa ordem. Uma fórmula que aparece antes da intuição é carga cognitiva pura.
- Uma ideia nova por seção. Se a seção precisa de duas, são duas seções.
- Termos técnicos consagrados sem tradução forçada (overfitting, embedding, batch, drift); traduzidos quando a prática já traduziu (viés, variância, acurácia).
- Tabelas para fatos enumeráveis; explicação vive na prosa, não nas células.
- Cada componente descrito deve, quando possível, declarar sua cláusula de expiração.
4. Como se escreve um exercício
A sintaxe completa está em BANCO-DE-EXERCICIOS.md. As regras editoriais:
- Todo exercício rastreia até um objetivo (
"objetivo":"O2"). Sem isso, o build falha. - O feedback (
> **porque:**) é obrigatório e explica o conceito — não apenas nomeia a resposta certa. Escreva-o pensando em quem errou, não em quem acertou. > **volte para:**aponta a âncora da seção que resolve a dúvida. É o gesto mais útil do livro.- Errar é parte do ciclo: o gabarito só é revelado na segunda tentativa. Escreva o enunciado sabendo que o leitor vai tentar de novo.
- Distratores plausíveis. Uma alternativa errada que ninguém marcaria não ensina nada. As melhores são as que capturam um mal-entendido real e comum.
- Ordem de dificuldade dentro do capítulo: reconhecimento → aplicação → julgamento.
- Exercício de código é sempre completion problem (Sweller): complete a lacuna, não escreva do zero. Criar do zero é trabalho da etapa do
ml-zero.
5. Como se escolhe um vídeo
- Um vídeo entra por aquilo que o texto não faz bem. Geometria animada, som, ritmo de derivação no quadro. Se o vídeo só repete o capítulo, ele não entra.
- Declare autor, duração e o que ele resolve. O campo de justificativa é obrigatório.
- Prefira material estável e gratuito. Vídeo atrás de paywall não entra (Princípio VI).
- Reconfira os links na janela de revisão. Vídeo morto é dívida do livro vivo, não do leitor.
- A carga do player só é pedida ao servidor de origem depois do clique do leitor — privacidade por padrão.
6. Datação, histórico e expiração
- Todo capítulo declara a data de captura no cabeçalho.
- Distinguem-se três datas: do evento (imutável), da captura (quando fotografamos) e do experimento (quando o número foi medido, com a versão da biblioteca).
- Toda edição atualiza
HISTORICO.md: changelog, snapshot por capítulo e o registro de expiração (🔵 aberta / 🟡 em curso / 🟢 confirmada / 🔴 refutada), com a versão do modelo de IA usada.
Regra de escrita associada: quando uma afirmação for sensível ao tempo ("hoje", "ainda não", "o consenso de 2026"), ela está implicitamente sob a data de captura do cabeçalho. Evite absolutos atemporais ("nunca", "sempre") a menos que sejam do tipo que não expira.
7. Revisão em duas camadas
Antes do copyedit de superfície, um passo de revisão developmental: re-ver estrutura e sentido. O argumento fecha? A ordem serve ao leitor? Há redundância ou lacuna? Os exercícios testam mesmo os objetivos declarados, ou testam o que foi fácil de perguntar?
"Escrever é reescrever." Nenhum trecho novo é publicado sem esse passo — é portão de qualidade da constituição (Princípio IX), não sugestão.
8. Siglas e glossário (política)
- Toda sigla é apresentada por extenso na 1ª ocorrência de um capítulo — "Support Vector Machine (SVM)" — e dali em diante o texto pode usar só a sigla.
- O motor reforça isso: envolve automaticamente cada sigla conhecida em
<abbr>, de modo que passar o mouse revela o significado em qualquer ocorrência, sem poluir o texto-fonte. O mapa vive empublicar/build.mjse é espelhado emglossario.md. - Ao introduzir uma sigla nova, adicione-a nos dois lugares e confira a expansão na fonte (Princípio I).
9. Fluxo repetível para um contribuidor
- Abrir o tema — pesquisa dupla (científica + indústria), verificada por busca cruzada; registrar lacunas.
- Definir os objetivos primeiro (Backward Design) e, logo em seguida, os exercícios — antes de escrever o corpo. Se você não consegue escrever o exercício, o objetivo está vago.
- Reunir a evidência — rodar o experimento no
ml-zero; anotar seed, versões e números. - Escrever — no esqueleto v5, um tipo de texto por seção (Diátaxis).
- Revisar (developmental) — §7.
- Verificar fontes — nenhuma URL/DOI inventado; não-confirmado marcado
⏳; sincronizarbibliografia.md. - Gate de build —
npm run build(empublicar/) verde: link-check e gate de exercícios. - Datar — selo no capítulo, entrada no
HISTORICO.mdcom a versão do modelo de IA, entrada noCHANGELOG.md.
10. Cadência do livro vivo
- Janela trimestral: reconferir vídeos, reexecutar os experimentos com as versões correntes das bibliotecas, atualizar o placar de expiração e as datas de revisão.
- Gatilho extraordinário: qualquer evento que invalide uma "Leitura executiva" (um resultado replicado que derruba uma recomendação, uma biblioteca central descontinuada, um dataset retirado) dispara revisão pontual do capítulo afetado, sem esperar a janela.
- Gatilho por telemetria: exercício com taxa de acerto muito baixa e volume relevante é sinal de que o texto está mal escrito, não de que o leitor é fraco. Ele entra na fila de revisão.